Fé, Pregação, Inteligência e Formação no Catecismo de Trento
4 fev 2010 | Categoria: GeralRepórter: Ezequiel Rocha
CATECISMO DOS PÁROCOS, REDIGIDO POR DECRETO DO CONCÍLIO DE TRENTO E PUBLICADO POR ORDEM DO SENHOR PAPA PIO V
PROÊMIO
Uma Revelação Sobrenatural - “As perfeições invisíveis de Deus, como ensina o Apóstolo, se conhecem, desde a criação do mundo, através das obras que foram criadas, assim como Seu poder sempiterno e Sua divindade”. (2) Mas “esse mistério, que se conservou oculto de todos os séculos e gerações” (3), excede tanto a inteligência humana que, “se não fora revelado aos santos a quem Deus quis fazer conhecer, mediante o dom da fé as riquezas deste mistério entre os povos, o qual é Cristo, por nenhum esforço poderia o homem chegar ao conhecimento de tal sabedoria”. (4)
Anunciada por legítimos pregadores. [2] Como, porém, “a fé vem do ouvir” (5), fácil é averiguar que, para a salvação eterna, sempre houve mister a função e assistência de um mestre fiel e legitimo. Não foi dito: “De que modo hão de ouvir sem pregador? E como hão de pregar, se não foram enviados?” (6). De fato, desde que o mundo é mundo, por grande bondade e clemência, Deus nunca abandonou Suas criaturas. Mas em muitas ocasiões e de várias maneiras falou a nossos pais pelos Profetas. (7) Conforme a época em que viviam, ensinou-lhes um caminho reto e seguro para a bem-aventurança do céu.
2. Mestre de toda a humanidade é Crist0 – [3] Tendo predito que enviaria um mestre da justiça (8) para iluminar os povos, e levar Sua obra de redenção até os confins da terra (9), Deus falou-nos em ultimo lugar pela boca de Seu Filho. (10) Por uma voz descida do céu, da majestade de Sua glória (11), mandou também que todos ouvissem e obedecessem a Seus preceitos. (12)
A Igreja - O Filho, porém, a uns fez Apóstolos; mestres. (13) Deviam eles anunciar a palavra da vida (14), para que não fossemos levados, como crianças, a mercê qualquer sopro de doutrina (15), mas, apoiados na sólida base da fé, nos edificássemos a nós mesmos como morada de Deus no Espírito Santo. (16)
Que fala em nome de Cristo – [4] Para que, ouvindo dos ministros da Igreja a palavra de Deus, ninguém a tomasse como palavra humana, mas pelo que ela é realmente, como palavra de Cristo (17), quis o próprio Nosso Senhor atribuir tanta autoridade ao seu magistério, que chegou a declarar: “Quem vos ouve a Mim é que ouve; e quem vos despreza a Mim é que despreza” (18)
1. As Falsas Doutrinas – E que saíram pelo mundo falsos profetas (20), dos quais disse o Senhor: “Eu não enviava (esses) Profetas, e eles corriam; Eu não lhes falava, e eles profetavam”(21) Desta arte queriam corromper os ânimos cristãos com “doutrinas estranhas e fora do comum”. (22) Armados de todas as astúcias diabólicas, tão longe levaram nesse ponto sua impiedade, que já parece quase impossível detê-los em firmes barreiras.
2. Veiculadas por Maus Livros [6] Ante a absoluta impossibilidade de falar a todos individualmente, e de gotejar-lhes ao ouvido idéias cheias de veneno, os que se propunham depravar os corações dos fiéis, lançaram mão de outro meio com o qual mais facilmente conseguiram espalhar por longe os erros de sua impiedade.
III. Ensejo e finalidade do Catecismo Romano
2. Finalidade e Intenção [9] – Muitas são as verdades que poderiam entrar neste programa de religião. Não vá alguém julgar fosse plano do sagrado Sínodo reunir num só manual, e explicar por extenso todos os artigos do dogma cristão. Isto compete aos teólogos, enquanto se propõem fazer uma exposição completa da religião, com sua história e seus dogmas. Seria, em nosso caso, um trabalho de nunca acabar, e pouco corresponderia, certamente, ao que se desejava.
IV. Avisos para pregadores e catequistas
1. Requisito: [10] O primeiro requisito, ao que parece, é lembrarem-se os pastores, continuamente, que toda a ciência do cristão se resume neste ponto capital, ou antes, como se exprime Nosso Salvador: “Esta é a vida eterna, que só a Vós reconheçam como verdadeiro Deus, e a Jesus Cristo, que Vós enviastes”. (26)
Por conseguinte, o mestre eclesiástico procurará, em primeiro lugar, que os fiéis queiram de coração conhecer a Jesus, e por sinal que crucificado (27); que tenham a firme persuasão, e creiam com intimo amor e respeito, que debaixo do céu não foi dado, aos homens, outro nome pelo qual possamos salvar-nos (28), porque Ele mesmo é a propiciação pelos nossos pecados. (29)
A Imitação de Cristo – Como só temos certeza de conhecê-Lo, se observarmos os Seus mandamentos (30), a segunda obrigação, intimamente ligada a que acabamos de estatuir, é mostrar que os fiéis não devem viver no ócio e na preguiça, mas que devemos andar, como Ele mesmo andou (31), e com todo o zelo praticar a justiça, a piedade, a fé, a caridade, a mansidão. (32) Pois (Cristo) entregou-Se a Si mesmo, por nossa causa, a fim de nos remir de toda iniqüidade, e purificar para Si um povo aceitável, zeloso na pratica de boas obras. (33) Assim manda o Apóstolo que os pastores digam em seus sermões e conselhos. (34) Antes de tudo pelo amor a Deus e ao próximo Nosso Senhor e Salvador não só ensinou, ma também mostrou com seu exemplo, que da caridade dependem a Lei e os Profetas. (35) Mais tarde, o Apóstolo exprimiu-se nesse mesmo sentido, dizendo que a caridade é o fim do preceito (36) e a consumação da Lei. (37)
2. Requisito: Maneira de ensinar [11] Adaptar-se aos ouvintes – Se em toda instrução muito vai a questão de método, não se pode negar sua importância na instrução do povo cristão.
A exemplo dos Apóstolos – Desta obrigação queria o Apóstolo dar a todos um exemplo em sua pessoa, quando se declarou “devedor aos gregos e aos bárbaros, aos sábios e ignorantes”. (47) Certamente assim falava para que os chamados a tal ministério reconhecessem a necessidade de acomodar-se à índole e à inteligência dos ouvintes, quando lhes explicam os mistérios da fé e os preceitos da vida cristã. Enquanto saciam com alimento espiritual os fiéis de formação mais adiantada, não deixem perecer de fome os pequeninos que pedem pão, sem haver quem lho parta. (48)
A exemplo do próprio Cristo. Se a própria Sabedoria do Eterno Pai baixou a terra para nos ensinar, na vileza da carne humana, as leis de uma vida toda celestial, quem não será levado, pelo amor de Cristo (49), a fazer-se pequenino no meio de seus irmãos? (50) E qual mãe que amamenta seus filhinhos, quem não desejará tão avidamente a salvação do próximo, que esteja pronto, como de si mesmo dizia o Apóstolo, não só a dar-lhe o Evangelho de Deus, mas até a própria vida?(51)
b) Seguir os quatro pontos tradicionais [12] – Ora, toda doutrina por ensinar aos fiéis está contida na palavra de Deus. Reparte-se esta em Escritura e Tradição, que dia e noite devem constituir objeto de reflexão para os pastores. (52)
Encerram todos os quesitos da instrução – Explicados que forem estes quatro pontos, tidos como “lugares comuns” (56) da Escritura, já não faltará quase nenhuma das verdades que o cristão deve saber para a sua instrução. Em conclusão, pareceu-nos conveniente dar ainda aos párocos um aviso prático. Todas as vezes que tiverem de interpretar algum lugar do Evangelho, ou qualquer outra passagem da Sagrada Escritura, saibam que seu sentido coincide com algum artigo dos quatro pontos mencionados. A esse ponto podem então recorrer, como a uma fonte doutrinária do trecho que devem explicar.
…e os sincronizam com a explicação do Evangelho. Se tiverem por exemplo de explanar o Evangelho do primeiro domingo do Advento: “Haverá sinais no sol e na lua, etc” (57); encontrarão um comentário no artigo do Símbolo: “Há de vir a julgar os vivos e os mortos”.
c) Seguir a ordem que melhor lhe parecer. Quanto a disposição da matéria, tomará o esquema que mais próprio lhe parecer às pessoas, e às circunstâncias de tempo.
1) Gen 1, 26 ss; 5,1; 9.6; Sap 2,23; DZ 1785 1795. – 2) Rom 1,20. – 3) Col 1,26. – 4)Col 1,27; DZ 1794 1791. – 5) Rom 10,17. – 6) Rom 10,14-15. – 7) Hebr 1,1. – 8)Joel 2,23. – 9) Is 49.6. – 10) Hebr 1.2. – 11)2 Petr 1.17. – 12)Mt 17.5. – 13)Eph 4.11. – 14)Jo 6.64-69 – 15) Eph 4,14. – 16) Eph2,22. – 17) 1Th 2,13. – 18) Lc 10.16. – 19)Mt 28,20: DZ 426 – 20) 1 Jo 4,1; DZ 434.643 ss. 853. – 21) Jer 23,21. – 22)Hebr 13,9. – 23)Mt 16.18 – 24)Eph 4.5. – 25) A ignorância é hoje esporádica. Isso a parte, o CRO nunca foi propriamente, um manual para padres ignorantes. Pelo contrário, seu método ativo – como diríamos hoje – pressupõe certa madureza de espírito. Tem por fim mostrar aos párocos os aspectos mais vitais de nossa Religião. Torna-se assim uma metodologia, um verdadeiro “Werkbuch”, no dizer dos alemães. – 26)Jo 17,3. – 27)1Cor 2,2. – 28)Act 4,12. – 29) 1Jo 2,2. – 30)1Jo 2,3. – 31)1Jo 2,6. – 32)1Tim 6,11; 2Tim 2,22 – 33) Tit 2,14. – 34)Tit 2,15. – 35) Mt 22,39 ss. – 36) 1Tim 1,5. – 37)Rom 13,8-10 – 38)Ps 72,25. – 39) 1 Cor 12,31. – 40) 1 Cor 13,8. – 41) 1 Cor 16,14. – 42)1Cor 9,22. – 43) 1 Cor 4,1-2. – 44) Mt 25,23. – 45) 1 Petr 2,2;1 Cor 3,2; Hebr 5,12. – 46) Eph 4,13. – 47) Rom 1,14 – 48)Th 4,4. – 49) 2 Cor 5,14. – 50) 1 Th 2,8. – 52)Ps 118,97. – 53) 1 Tim 4,13 – 54) 2Tim 3.16-17. 55) 1 Tim 1.5. – 56) “Loci Communes”. Termo teológico que desde o século XVI designa um conjunto de verdades principais e fundamentais do cristianismo, evidenciadas quase que exclusivamente por meio de passagens bíblicas (loci biblici communes).




