Auschwitz, 60 anos depois

2 mai 2008 | Categoria: Geral
Repórter: Ezequiel Rocha

Auschwitz, 60 anos depois

A literatura: os testemunhos e a memória dos outros

27.01.2005

Foi em 1944 que, de certo modo, tudo se decidiu para três dos grandes escritores do Holocausto: Primo Levi e Elie Wiesel chegaram a Auschwitz e, numa aldeia alemã onde a guerra nunca chegara, nasceu W.G. Sebald.

Com este facto crucial a separá-los, o que os três futuros escritores fizeram arruma-se de uma forma simples: os sobreviventes escreveram testemunhos directos do horror de Auschwitz, clássicos da literatura. E Sebald, num misto de história e ficção, escreveu sobre a memória de todas as vítimas sem voz; chamaram-lhe o “escritor pós-Holocausto”.

Primo Levi, um químico italiano de Turim, tinha 24 anos quando foi tatuado pelas SS com o número 174517 e Elie Wiesel, húngaro e Nobel da Literatura em 1986, tinha 15 quando passou a ser A-7713. Sebald, portanto, nasceu – faltava pouco mais de um ano para a guerra acabar – numa Alemanha que demorou mais de 20 anos a conseguir ouvir falar do Holocausto e das histórias que Levi, Wiesel e muitos outros tinham para contar.

O próprio Sebald (1944-2001) só se apercebeu da verdadeira dimensão do regime nazi quando, aos 21 anos e estando fora da Alemanha, acompanhou pelos jornais o “processo de Auschwitz”, em Frankfurt, já nos anos 60. O “leitor de hoje”, disse em entrevistas muito depois, não consegue “assimilar descrições directas” do Holocausto. E por isso, embora sempre presente, nos seus livros o horror é indirecto e tangencial. Em “Austerlitz” (2001, editado agora pela Teorema) a ida para o campo de Terezín, na Checoslováquia, é-nos contada por alguém que falou com alguém a quem alguém contou a história: “Vìra disse-me que talvez, disse Austerlitz, fosse de outro modo se ela tivesse podido…”

E a história de Paul Bereyter, um professor primário judeu que se suicidou aos 74 anos, é-nos contada assim: “Ouvi da Sra. Landau, que deve ter falado interminavelmente com o Paul sobre estas coisas, o que se foi tornando mais claro a cada nova visita.” (“The Emigrants”, 1993, que a Teorema vai traduzir este ano).

Em “Se Isto É um Homem”, de Levi (1947), e “Noite” (primeiro volume da trilogia) que Wiesel escreveu entre 1955 e 1960, as histórias sobre a chegada e a vida em Auschwitz são contadas na primeira pessoa. O rapaz da “Noite” que diz “Bebés! Sim, eu vi – eu vi com os meus próprios olhos… aquelas crianças nas chamas” é Elie Wiesel. É ele também que, mais à frente, anuncia: “Nunca esquecerei aquela noite, a primeira noite no campo, que tornou a minha vida numa longa noite. Nunca esquecerei aquele fumo. Nunca esquecerei as pequenas caras das crianças, cujos corpos eu vi transformarem-se em rolos de fumo. Nunca esquecerei o silêncio nocturno que me impediu, para toda a eternidade, de desejar viver. Nunca esquecerei aqueles momentos que assassinaram o meu Deus e a minha alma e transformaram os meus sonhos em poeira. Nunca esquecerei estas coisas, mesmo que seja condenado a viver tanto quanto Deus. Nunca.”

Levi, que desde os anos 60 e até morrer (crê-se que suicídio) dedicou grande parte do seu tempo a falar em escolas e universidades sobre Auschwitz, ouviu durante anos, pacientemente, milhares de “perguntas inocentes, ofensivas ou superficiais”, conta a biógrafa Myriam Anissimov (“Primo Levi – Tragedy of an Optimist”, Overlook, 1999), mas o que “mais o chocou foi o facto de os estudantes falarem do extermínio dos judeus europeus como se fosse História Antiga e ficarem surpreendidos quando se apercebiam que estavam a ouvir um homem que não era muito velho”. O seu “Se Isto É um Homem” foi durante décadas um desastre de vendas. Só em 1979, ao entrar na colecção de Clássicos Modernos da Penguin, foi reconhecido como um livro fundamental.

Mas estes são apenas três escritores, entre dezenas, que construíram as imagens que temos hoje, 60 anos depois, do Holocausto. Escritores como Paul Celan, Bruno Bettelheim e Jean Améry (todos se suicidaram), Robert Antelme, Tadeusz Borowski, Jorge Semprún e Imre Kertész (Nobel Literatura em 2002), e pelo meio os célebres diários de Anne Frank, os enormes romances do grande divulgador Leon Iuris (“Mila 18″, etc.) ou a BD “Maus” de Art Spiegelman.

fonte: http://dossiers.publico.pt/noticia.aspx?idCanal=1383&id=1214264

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Um comentário
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  1. Assisti ao filme A Tregua, que conta uma passagem de Primo Levi. Estamos em pleno seculo 21 e as coisas ainda nao mudaram. As guerras continuam a existir. É um filme que prende a atençao da gente desde o inicio. Sabemos que logo apos uma guerra a liberdade que parece ser algo muito importante , deixa de se-lo quando nos deparamos com a realidade da sobrevivencia.

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